segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Projeto Germânio

PROJETO  GERMÂNIO

O Projeto Germânio foi o primeiro projeto de pesquisa na área de semicondutores realizado no Brasil.  Foi implantado no Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento – IPD, do Centro Técnico de Aeronáutica – CTA , São José dos Campos, SP, em fins de 1954 pelo seu Diretor, Tte.Cel. (Av.) Aldo Weber Vieira da Rosa.
Cheguei ao CTA, recém-formado em Física pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, em princípios de 1955, levado por meu amigo Sergio Porto, com a proposta de lecionar no Departamento de Física do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA. 

 Após entrevista com o chefe do   Departamento,  Prof. Paulus Aulus Pompéia, sendo por ele aceito, fui levado para almoçar no restaurante do Natalino, como era conhecido o restaurante do CTA. Sentou-se ao meu lado  o Cel. Aldo, Diretor do IPD,  que, dizendo saber da  minha experiência em laboratório (estagiei durante meus anos de aluno no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas – CBPF), sugeriu que eu poderia ser útil num projeto que estava sendo iniciado: o Projeto Germânio (no  Laboratório X-2).  A descrição do que se queria fazer foi suficiente para me convencer a  aceitar a sugestão. Logo em seguida voltei a  falar com o Prof. Pompéia, agradecendo e convite, mas não aceitando a posição oferecida no Departamento de Física do ITA.  Trabalharia no Laboratório X-2 do IPD.

 Já faziam parte do Projeto o físico Carlos Quadros (que pouco tempo depois foi para o Instituto de Física da Universidade de S. Paulo), a  química   Ljuba  Van Eycken Peek, recém-chegada da Louisiana State University, e o técnico húngaro Ferenc Fabian (sem o qual o projeto não teria tido sucesso – foi ele quem construiu a maior parte do equipamento utilizado na pesquisa e na instalação piloto).

 O Projeto Germânio consistia em tentar produzir monocristais de Germânio de alta pureza para a fabricação de dispositivos semicondutores. Semicondutores são materiais situados entre metais e isolantes. Em baixas temperaturas são isolantes e à medida que sua temperatura sobe passam a conduzir eletricidade.  Havia poucos anos, em 1947, os físicos do Bell Laboratories Bardeen, Brattain e Schockley haviam descoberto o efeito transistor e construído o primeiro dispositivo semicondutor deste tipo.  O transistor, pequeno dispositivo sólido (Germânio), podia amplificar um sinal elétrico, substituindo com vantagem a válvula a vácuo. Com diodos (retificadores) e transistores (amplificadores) podiam ser construídos equipamentos eletrônicos miniaturizados e consumindo pouca energia. Logo foram utilizados em transmissores e receptores de radio. A fabricação de transistores estava protegida por patentes e suas etapas eram envolvidas em sigilo.  Era intenção da Aeronáutica desenvolver técnicas autóctones de fabricação de dispositivos semicondutores e transferí-las à indústria nacional.  O primeiro problema a ser atacado era o de produzir monocristais de Germânio de alta pureza.

Meses de ensaios foram gastos desenvolvendo técnicas de medida das propriedades de semicondutores (principalmente resistividade elétrica e tempo de vida média de portadores) que permitiriam detectar a pureza e a perfeição cristalina dos cristais de Germânio.  Para a medida da resistividade foi utilizado o método das quatro pontas e para a medida do tempo de vida média dos portadores de carga elétrica foi utilizado um pulso quadrado de luz para excitar a produção de portadores e observando a curva de  decaimento por recombinação num oscilógrafo Tektronix.

 Em seguida foi iniciado o planejamento e construção de um laboratório de alta limpeza para a metalurgia física do germânio.  Seria composto de três salas separadas por divisões de vidro, com pressão positiva, isto é, o ar filtrado era insuflado na última sala, passando desta para a do meio e, finalmente, para a terceira e desta para fora.  Assim, ao entrar no laboratório a pressão de ar impediria a entrada de poeira (impurezas capazes de contaminar o Germânio).

 Enquanto a área química procedia à análise de minérios brasileiros na busca de germânio, nosso trabalho era realizado a partir de óxido de Germânio (GeO2), de alta pureza química, determinada pelo laboratório  de química, adquirido no exterior.

 Na primeira sala foi instalado um forno tubular para a redução do óxido de Germânio em atmosfera de hidrogênio. O óxido era colocado em barquetas fabricadas a partir de barras de grafite de pureza nuclear.  Após a redução a temperatura do forno era elevada para fundir o pó de Germânio produzindo lingotes.

 Em seguida era necessário purificar ao máximo o lingote de Germânio.  Para isso foi projetado e construído,  por uma firma de S. Paulo,  um forno de radio freqüência (2 MHz), em que a radiação induziria corrente elétrica no lingote, numa estreita faixa,  a partir de uma bobina plana. A alta temperatura produzida pela corrente fundiria o lingote no centro da bobina.

 Por dentro da bobina passava um tubo de Vycor (vidro de alta pureza e baixo índice de dilatação).  A barqueta com o lingote de Germânio era colocada no centro do tubo, que se apoiava num carrinho movido por um mecanismo de relógio. O ar do interior era inicialmente purgado com argônio e finalmente substituído por hidrogênio, que era queimado na saída, após passar por um filtro de lã de aço, para evitar o retorno da chama.

 No início da operação uma das pontas do lingote era colocado sob a bobina que, ao ser ligado o forno, produzia uma fina faixa fundida no início do lingote. Ao se acionar o mecanismo de relógio o tubo de Vycor se deslocava, fazendo com que a faixa fundida. (“zona”) se deslocasse lentamente em direção à outra extremidade do lingote.  Como as impurezas ainda existentes no material têm  a tendência a se concentrar na fase líquida, várias “varreduras” do lingote fariam com que as impurezas fossem transportadas para uma das pontas do lingote que era retirada, deixando o lingote com Germânio de alta pureza.

 Na sala central do laboratório foi montado um sistema para puxar monocristais de Germânio pelo método de Czochralski. O sistema consistia de três partes principais



1.         um sistema de alto-vácuo, compreendendo uma bomba rotativa e uma bomba  de difusão a óleo, um reservatório de vácuo e os medidores de vácuo:



2.         um forno de radio freqüência (compreendendo o gerador, bobina e  potenciômetro para controle da potência transmitida e, portanto, da temperatura, bem como um sistema de registro automático de temperatura);



3.         uma câmara de vácuo de Vycor envolvida pela bobina de radio freqüência no
             interior da qual era instalado um suporte de grafite de pureza nuclear contendo
            no seu interior um cadinho de porcelana, no qual era fundido o germânio de alta   
             pureza obtido por fusão por zona; e



4.         um sistema mecânico para elevação e rotação de uma haste contendo em sua extremidade inferior uma semente  monocristalina  de Germânio, cuja velocidade era controlada magneticamente, movida por sistema acionado por um jato de ar comprimido com pressão controlada.                                                          


Na terceira sala estavam montados os equipamentos de medida de resistividade e de vida média de portadores e o escritório onde eram arquivados os dados experimentais.

 Depois de resolvidos os problemas relacionados com a redução e fusão do óxido de Germânio e da purificação por zona dos lingotes produzidos atacou-se o problema de obter uma semente monocristalina de Germânio que servisse para puxar monocristais de grandes dimensões.

 O primeiro problema era o de conseguir estabilizar a temperatura do Germânio fundido o mais próximo possível do ponto de fusão de modo a solidificar qualquer quantidade de germânio que fosse levantada da superfície da massa fundida. Isto foi conseguido, depois de muitos ensaios, com o aperfeiçoamento das medidas de temperatura por meio de pares termoelétricos e controle da potência do forno de radio freqüência por meio de um potenciômetro.

 A primeira semente foi obtida acidentalmente.  Às vezes a sorte ajuda. Após inúmeras tentativas de obter um monocristal por abaixamento programado da temperatura, houve uma pane no sistema elétrico do laboratório e o forno de radio freqüência desligou.  Observado o sistema verificou-se que uma pequena semente monocristalina flutuava sobre a massa fundida (o Germânio na fase sólida é menos denso que na fase líquida).  Esta semente cresceu lentamente até ocupar toda a superfície e daí todo o material no cadinho.

 Por meio de um aparelho de corte especialmente construído a partir de um motor de máquina de costura e fio de aço de gravador magnético, foram cortadas várias amostras do monocristal obtido.

 As amostras mono cristalinas de Germânio foram trazidas ao Rio de Janeiro onde foi feita a determinação da orientação cristalográfica das mesmas.  Neste ponto devemos realçar a colaboração do Prof. Elysiario Távora e sua equipe no laboratório de cristalografia do Departamento Nacional da Produção Mineral – DNPM.

 A partir dessas sementes foi iniciado um exaustivo processo de tentativas de crescimento de monocristais por solidificação controlada na base da semente e elevação progressiva (com rotação) da mesma.  Após semanas de tentativas foram determinadas as condições ótimas e monocristais perfeitos foram produzidos seguidamente.

 Enquanto a pureza necessária era controlada na fase de purificação por zona (pelo método das quatro pontas), a perfeição cristalina (que definia a vida média dos portadores de minoria) era determinada após cada operação de crescimento pelo método da curva de decaimento.  Conseguiu-se, a partir daí uma produção constante de monocristais de Germânio de alta pureza e perfeição cristalina, para a fabricação de dispositivos semicondutores.

 Foram então iniciados estudos de difusão de impurezas tri- e penta-valentes  para a fabricação de junções p-n e n-p,  com a finalidade de fabricar diodos de potência.

 A idéia da transferência da tecnologia desenvolvida para a indústria nacional foi prejudicada, pois firmas internacionais implantaram fábricas de dispositivos semicondutores no Brasil antes que o processo almejado pudesse ser iniciado.


Fotos do laboratório e do equipamento utilizado serão incluidas mais tarde.

Em meados de 1957, terminada a fase de produção de monocristais, deixei o Projeto com uma Bolsa de Estudos do Departamento de Estado dos EEUU. para cursos de aperfeiçoamento em Física dos Sólidos e Semicondutores e pesquisa em baixas temperaturas  na Universidade de Pennsylvania, em Filadélfia, USA.

 Ao retornar ao Brasil em 1958 não voltei ao IPD/CTA, ficando no Rio de Janeiro.


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sábado, 17 de setembro de 2011

Os 60 Anos do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF

Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF 

Depois de uma conversa com o Prof. Odilon Tavares, e com a intenção de colaborar no registro da historia do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas – CBPF, por ocasião da celebração de seu 60º aniversário,  redigi as memórias que tenho de como o CBPF fez parte de minha formação e de minha vida profissional.  É a história de minhas muitas passagens pelo CBPF, ao longo de minha carreira, embora nunca tenha pertencido, formalmente, à instituição.  Aí vai a história.

Entrei para o CBPF em 1949, no mesmo ano em que entrei para a Faculdade Nacional de Filosofia da U. do Brasil para estudar Física.  Naquela ocasião o CBPF estava localizado no 21º. andar do Edifício Serrador, na Rua Álvaro Alvim,  no Centro da cidade.  Por indicação do Prof. Armando Tavares, fui solicitar estágio em laboratório e fui aceito.  Comecei a trabalhar com o Prof. Lauro Xavier Nepomuceno montando e operando Câmaras de Wilson para o estudo de partículas atômicas. Além do curso de Física e das horas diárias no CBPF eu dava aulas práticas de Química no Colégio Mello e Souza e aulas particulares de Física e Matemática.

No CBPF estavam, além do Lauro X. Nepomuceno, os professores José Leite Lopes, Cesar Lattes, Jaime Tiomno  (que foram meus professores na Faculdade) e Oliveira Castro.  Éramos três estagiários: o Luiz Osório de Brito Aghina (mais tarde meu colega no Instituto de Engenharia Nuclear), Ricardo Pitcovitz (que pouco depois viajou para o exterior) e eu.  O ambiente era até divertido. Lembro-me que certa vez o Lattes substituiu o líquido que era vaporizado dentro da câmara que eu estava operando  por um  outro líquido (que mais tarde identifiquei como sendo Crush, um refrigerante à base de laranja).  Passei dias tentando fazer a câmara funcionar, sem sucesso.  Finalmente, o Lattes me contou o que havia feito e me disse que isto fazia parte do meu treinamento - descobrir as causas de defeitos no funcionamento e repará-los.  Foi a primeira de várias peças que o Lattes me pregou ao longo dos anos.

Mais tarde veio trabalhar no CBPF o Prof. Helmut Schwartz, especialista alemão em alto-vácuo e, por falar inglês,  fui indicado para trabalhar com ele na montagem de sistemas de alto-vácuo e seus respectivos equipamentos de medição.  Depois participei da fabricação de contadores de Geiger-Mueller.

Quando estava quase pronto o galpão cedido no terreno da Universidade do Brasil, na Rua Wenceslau Brás, 71, o Lauro, eu e quatro fuzileiros navais cedidos pelo Comandante Gabriel Fialho,  fizemos a transferência dos equipamentos do CBPF do Centro para a Praia Vermelha.  Foi uma aventura.  Um fato cômico, quase trágico, aconteceu numa tarde em que o Lauro e eu, no calor do verão, sem camisa, e vestindo jalecos imundos de graxa e  poeira, carregamos aparelhos de laboratório da Rua Álvaro Alvim até a AV. Beira Mar, onde estava estacionado o carro dele.  Tendo esquecido as chaves do carro no CBPF, o Lauro forçou a porta do carro e depois  deitou-se sob o painel para fazer uma ligação direta.  Neste momento, fomos abordados por dois policiais que queriam nos prender por tentativa de roubo.  Além do mais, não tínhamos nossos documentos de identidade nem do carro conosco.  Finalmente, depois de exaustivas explicações nos deixaram seguir.

Lembro-me ainda de ter, ainda na fase de conclusão das obras do galpão, ajudado na pavimentação da sala próxima à entrada do prédio. 

A memória seguinte que tenho daquele tempo no CBPF foi do incêndio que houve na biblioteca, que ficava no segundo andar.  Foi uma corrida insana para salvar os livros depois que os bombeiros haviam apagado o fogo.  Um jornal da época publicou artigo, com foto, mencionando o Lattes “sentado na escada retorcida pelo fogo”.  Tratava-se da escada circular que levava ao segundo andar.  Eu estava sentado ao  lado do Lattes, ambos molhados e imundos  de fuligem.  Naquela ocasião ganhei do Lattes o apelido de “Bersaglière” (soldado italiano que, ao marchar,  corre).  Eu não andava, corria pelos corredores.  Algum tempo depois, parte do CBPF foi transferida para Niterói, onde estava sendo instalado um Ciclotron.  Eu trabalhava para o Lattes na classificação de válvulas foto-multiplicadoras,  que iriam ser utilizadas em pesquisas de radiação cósmica em Chacaltaya, na Bolívia.  Me  lembro que um dia o Lattes me avisou para vagar minha mesa, pois precisava dela para um cientista que acabara de retornar ao Brasil.  Era o Hervásio G. de Carvalho, com quem viria a trabalhar anos mais tarde.

Foram anos de trabalho até o fim de  1954, quando terminei a Faculdade.  No fim daquele ano fui convidado por um colega que se formara antes de mim, o Sergio Porto, para  lecionar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA /CTA, em São José dos Campos, Estado de São Paulo.  Lá chegando, fui entrevistado pelo Prof. Paulus Aulus Pompéia, Chefe do Departamento de Física, resultando ser aceito por ele.   Mais tarde, levado a almoçar no restaurante do Natalino (como era conhecido o restaurante do CTA), sentou-se a meu lado e começou a conversar comigo o Cel. Av. Eng. Aldo Weber Vieira da Rosa, Diretor do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento – IPD / CTA.   Dizendo saber (não sei como) que eu tinha experiência em trabalho de laboratório, me convidou a participar de um novo projeto que estava sendo iniciado no Laboratório de Metais Raros – PMR / IPD.  Foi bastante convincente e aceitei.  Voltei ao Departamento de Física para me desculpar com o Prof. Pompéia.

No PMR, como responsável pela área de metalurgia física,  participei do planejamento,  montagem e operação do primeiro laboratório para a produção de monocristais de Germânio de alta pureza para a fabricação de dispositivos semicondutores (diodos e transistores).  A Aeronáutica queria implantar no Brasil a recém-criada indústria de semicondutores. Lá  realizei os primeiros trabalhos de “purificação por zona” (obtenção de extrema pureza) e de crescimento de monocristais pelo método de Czochralski.   Foram produzidos os primeiros monocristais de Ge de alta pureza e desenvolvidos e  implantados os equipamentos de medida de resistividade (pureza) e de tempo de vida de portadores de minoria (perfeição cristalina).  Tudo isso poucos anos depois da invenção do transistor por Schockley, Brattain e Bardeen, nos Bell Laboratories, nos Estados Unidos.  Pouca informação era disponível na literatura científica. Todas as etapas de fabricação eram mantidas em segredo.

Em 1957, por indicação do colega Remolo Ciola e recomendação do Lauro Xavier Nepomuceno, naquela ocasião  professor de tecnologia de ultra-sons no Departamento de Eletrônica do ITA, recebi uma bolsa de estudos e pesquisa do Departamento de Estado dos Estados Unidos, no Departamento de Física da Universidade da Pensylvania, em Filadélfia, USA.  A bolsa não me permitia obter um título acadêmico, mas me dava liberdade para organizar meu plano de estudos e pesquisas.  Fiz vários cursos de Física do Estado Sólido e Teoria de Semicondutores e fiz trabalhos na área de medidas de propriedades elétricas e magnéticas de monocristais de semicondutores em temperaturas abaixo do ponto de ebulição do Hélio líquido.  À noite, fiz cursos de Propriedades de Transistores no Saint Joseph´s College, também em Filadélfia. Voltei ao Brasil em fins de 1958, não retornando ao CTA, ficando no Rio de Janeiro.

Recomecei minhas atividades dando um curso sobre Física do Estado Sólido e Semicondutores no antigo Instituto de Eletrotécnica, na Praça da República.  A partir deste curso fui convidado a lecionar Física Atômica, Física do Estado Sólido e orientar trabalhos de fim de curso no Instituto Militar de Engenharia – IME.  No IME acompanhei a instalação do Acelerador Cockroft-Wilson, que estava sendo montado pelos majores Duffles e Carilho, ambos também do CBPF.  No ano seguinte fui convidado, pelo Prof. Ferrúcio Fabriani, Catedrático de Metalurgia da Escola de Engenharia da Universidade do Brasil,  a criar a disciplina de Física de Metais no 5º. Ano do Curso de Engenheiros Metalúrgicos  da Escola, no Largo de São Francisco.  Nos intervalos freqüentava o CBPF.

Em 1960 fui contratado pelo Almirante Octacílio Cunha, Presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN, como Assessor da Presidência, e cedido ao CBPF para colaborar com o Jacques Danon na implantação da Divisão de Estado Sólido.  Comecei fabricando detectores de radiação (Ge/Au) e mais tarde dediquei-me a pesquisar as propriedades de superfície de ligas metálicas (troca isotópica entre metais e íons em soluções), utilizando traçadores radioativos.  Minhas amostras eram irradiadas no reator do Instituto de Energia Atômica, em São Paulo, de onde eu as trazia, tarde da noite, no último vôo do dia.  Do aeroporto ia direto ao laboratório no CBPF, antes que o decaimento prejudicasse as medidas.  Dividia um laboratório no primeiro andar com a Micheline Levy.  Acredito ter influenciado vários alunos de Física a trabalhar sobre metais e terras raras.  Tendo em vista as condições de dificuldades orçamentárias que imperavam na ocasião, lembro-me de ter que me valer de outros laboratórios para conseguir equipamentos e reagentes que precisava.  Assim, recorria ao Prof. Oliveira Castro e ao Prof. Fritz Feigl, no Departamento Nacional de Produção Mineral – DNPM, e ao Prof. Zamith na Escola Nacional de Química.  Nunca tive um pedido recusado.

Não posso deixar de mencionar o convívio no CBPF com o Ugo Camerini (com muitas idas ao cinema), com o José Giambiagi, no Centro Latino Americano de Física - CLAF, e também com o Prof. Richard Feynman (que ainda não havia recebido o Prêmio Nobel), que me deu uma aula de estatística no bar da varanda do Hotel Debret, na Avenida Atlântica, num fim de tarde, depois de sair do CBPF.

Em 1962 fui contratado pelo Instituto de Engenharia Nuclear – IEN, para pesquisar na Divisão de Física Nuclear, chefiada pelo Herásio G. de Carvalho.  Como as instalações do IEN ainda não estavam prontas, os trabalhos eram realizados no CBPF.  Além da equipe de microscopistas, trabalhavam lá o Arthur Gerbasi da Silva, e dois recém-formados, o Rex Nazaré Alves e o Luiz Telmo Auler. Mais tarde juntou-se ao grupo a Solange de Barros. Meu trabalho consistiu no estudo da detecção de trajetórias de produtos de fissão natural de Urânio contido em laminas de mica de diversas origens. Mais tarde fui encarregado da preparação de alvos de emulsões fotográficas que foram utilizadas em estudos de fissão de U, Th e Bi por prótons de alta energia, e foto-fissão por brehmstrahlug.  As irradiações foram feitas no DESY na Alemanha, em Frascati, na Itália e em Brookhaven, nos Estados Unidos.

Mais tarde fomos, finalmente, transferidos para as novas instalações no IEN, na Ilha do Fundão, onde retomei a fabricação de detectores semicondutores (Ge/Au) de partículas alfa.  Cessaram então minhas atividades no CBPF.  Mas, num futuro não muito distante, voltei a ter contato com o pessoal do CBPF, mas em condições muito diferentes.  Para isso, tenho que continuar com minha história profissional.

Trabalhando no IEN, recebi em 1967 da Agencia Internacional de Energia Atômica – AIEA, uma “fellowship” para trabalhos de pesquisa no Lawrence Radiation Laboratory, em Berkeley, California, USA.  Lá chegando, depois de entendimentos com meu chefe de pesquisas e com o Diretor do Departamento  de Engenharia Nuclear do College of Engineering da U. da California (Berkeley), e com autorização da AIEA e da CNEN, consegui uma transferência para a Universidade, onde recebi o título de M.Sc. in Engineering  Science (Nuclear Engineering).

Retornando ao IEN em fins de 1968, fui incumbido de criar uma Divisão de Metalurgia Nuclear – DMN, que passei a chefiar.   Convidado pela COPPE/UFRJ lecionei cursos sobre Materiais para Reatores Nucleares de Potência, Física Nuclear e Teoria das Propriedades dos Sólidos.

Em 1972 o IEN saiu da esfera da CNEN e passou a pertencer à recém criada Companhia Brasileira de Tecnologia Nuclear – CBTN, encarregada de promover as atividades do monopólio estatal do combustível nuclear.  Logo em seguida, fui exonerado da chefia do DMN e passei a chefiar o Projeto Elemento Combustível – PEC no Rio de Janeiro.  Era encarregado do projeto e fabricação dos componentes estruturais do elemento combustível PWR de Angra-1, montagem do elemento combustível e pelo projeto conceitual da fabrica de elementos combustíveis PWR (que deu origem à fabrica hoje em operação em Itatiaia, RJ).

Meses depois fui removido do IEN, na Ilha do Fundão, para a sede da Diretoria de Planejamento e Coordenação – DPC, na Gávea, e encarregado de criar o Departamento de Combustíveis e Materiais Nucleares – DCMN, responsável por todas as etapas do ciclo do combustível nuclear (monopólio estatal), exceto a área de mineração.  Passando a chefiar o DCMN coordenei as atividades de pesquisa do combustível nos Institutos da CBTN: o Instituto de Engenharia Nuclear – IEN no Rio de Janeiro, o Instituto de Pesquisas Radioativas – IPR em Belo Horizonte e, por convênio, o Instituto de Energia Atômica – IEA em São Paulo.  As atividades eram relacionadas com as fases críticas do ciclo do combustível nuclear: o enriquecimento isotópico do urânio, a fabricação de elementos combustíveis, o reprocessamento do combustível irradiado e a disposição final dos rejeitos radioativos.

Nesta ocasião a Eletrobrás apresentou seu plano de implantação de usinas de geração elétrica até 1990 (conhecido como Plano 90) no qual propunha a aquisição de 8 usinas nucleares até aquela data.  Considerando que 8 usinas já constituíam um mercado considerável, a equipe da CBTN (todos civis – é importante que se diga) elaborou um Programa Nuclear de Referência, no qual propunha ao Governo, ao invés de adquirir no exterior as usinas, como havia sido feito no caso de Angra-1, adquirir a tecnologia de fabricação de usinas nucleares e do ciclo do combustível, bem como a tecnologia de implantação das diversas atividades industriais pertinentes.  Depois de meses de viagem a Brasília para convencimento dos diversos Ministérios intervenientes, foram aprovados o Plano 90 da Eletrobrás (ficando Furnas encarregada da operação das usinas) e o Programa Nuclear de Referência ( com as atividades industriais e de pesquisa subordinadas à CBTN).  Ficou assim criado o Programa Nuclear Brasileiro.

Iniciou-se, então, a procura de um parceiro competente e desejoso de fornecer TODA a tecnologia necessária.  Negociamos com os Estados Unidos e já tínhamos quase tudo acertado quando o Departamento de Comércio daquele país proibiu a transferência de tecnologias críticas (enriquecimento isotópico do urânio e reprocessamento do combustível irradiado).  Negociamos com o Reino Unido mas, finalmente, o reator por eles oferecido foi do tipo Steam Generating Heavy Water Reactor – SGHWR, que exigia tanto a tecnologia de enriquecimento de urânio como a de produção de água pesada.  Nem eles usavam este tipo de reator.  Negociamos com a França e a tecnologia de enriquecimento de urânio oferecida era a de difusão gasosa (muito cara e até então utilizada para a fabricação de armas nucleares).  No fim, as negociações com a França foram interrompidas por não satisfatórias.  Finalmente, conseguimos um acordo satisfatório com a Alemanha que, inclusive, ofereceu financiamento par as várias etapas industriais.  Participei das negociações com o Ministro da Ciência alemão, Dr. Schmidt-Kuester, sobre as atividades a serem contratadas na área do ciclo do combustível, que passaram a fazer parte do documento que passou a ser conhecido por Protocolo de Brasília.  Ao contrário do que se afirmava na comunidade científica na ocasião, a escolha da Alemanha não se deveu ao fato do então Presidente da República, General Ernesto Geisel, ser de origem alemã.

Negociados os contratos de transferência de tecnologia, teve início o chamado Acordo Nuclear, sendo a CBTN extinta e substituída pela Nuclebrás, como detentora do monopólio estatal. Tornado público o Acordo Nuclear, imediatamente começaram a surgir críticas da comunidade científica brasileira que apregoava o desejo de se ter um projeto autóctone de reatores nucleares, com toda a pesquisa necessária conduzida no País.  Sugeriam a alocação de verbas orçamentárias substanciais para as pesquisas para o desenvolvimento de protótipos nacionais de reatores e para as diversas etapas do ciclo do combustível, inclusive utilizando reatores alimentados a Tório (material fértil, não físsil).  Acontecia, no entanto, que esta proposta, além de não garantir um sucesso dos projetos, não traria os resultados em tempo hábil para envolver a indústria nacional e, ao mesmo tempo, satisfazer o cronograma aprovado no Plano  90.  Por outro lado, e com maior intensidade, havia oposição ao Programa Nuclear proposto por ser um projeto aprovado pelo Governo Militar da ocasião.

Por ser físico e ter contatos em praticamente todo o ambiente científico nacional, fui encarregado de fazer palestras descrevendo os termos do Programa  Nuclear e do Acordo Nuclear com a Alemanha em vários congressos, universidades e centros de pesquisas.  Quase sempre era hostilizado.  Numa ocasião fui representar a NUCLEBRÁS num simpósio internacional sobre energia, realizado no Guarujá, SP, sob a coordenação do Prof. Oscar Sala. Do lado de fora havia uma demonstração contra o Programa Nuclear. Depois de minha palestra, tarde da noite, à beira da piscina, com uma bebida na mão, ouvi de colegas esta frase, dita após tomarem conhecimento das atividades em execução: “se eu não fosse contra este Governo, bem que eu gostaria de estar participando”.

No CBPF, onde  vinha com freqüência, não consegui convencer meus colegas e meus antigos professores com quem falava sobre o Programa Nuclear em execução.  Acredito, até hoje, que era mais uma atitude política do que científica ou técnica.

Implantadas as várias atividades  do  Acordo Nuclear, que eu coordenava como Superintendente de Planejamento da Tecnologia da Nuclebrás, em 1979 foi desativada a Diretoria de Planejamento e Coordenação e eu aceitei o convite do Secretário Geral do Ministério das Minas e Energia – MME, para assessorá-lo, cargo que ocupei até 1983.  Em Brasília, coordenei, na área do MME, a análise a a aprovação de projetos da Petrobrás, Eletrobrás, Nuclebrás, Vale do Rio Doce e outras, para inclusão no Programa de Mobilização Energética – PME, chefiado pelo Vice Presidente da República, Aureliano Chaves.  No âmbito de minhas atribuições no Programa Nacional do Carvão, fui o “General Manager” do Programa Teuto-Brasileiro de Cooperação na Área de Utilização do Carvão Mineral Brasileiro (principalmente gaseificação) e de Planejamento de Energia.   Participaram, pelo lado brasileiro a Companhia Auxiliar de Empresas Elétricas Brasileiras – CAEEB, coordenando vários institutos de pesquisa e, pelo lado alemão, o Kernforschungsanlage Juelich GmbH, coordenando várias empresas e institutos de pesquisa alemães.

Aposentei-me das atividades de Governo em 1983, passando a representar no Brasil o Southwest Research Institute, de San Antonio, Texas, USA, em contratos de transferência de tecnologia para a indústria nuclear, aeronáutica, de produção de petróleo, indústria naval e na prestação de serviços de garantia da qualidade.  Trabalhei nesta área até 1990.

Nos últimos anos tenho-me dedicado à consultoria para a implantação de novas tecnologias nas áreas de aproveitamento de calor residual, geração de energia elétrica por novos processos (em fase de certificação – sou Vice Presidente de empresa dedicada à implantação de tecnologia de geração elétrica “geomagmatica” nos países do Mercosul) e, recentemente, na proposta de implantação de um centro de monitoração ambiental remoto, em tempo real, das águas oceânicas costeiras do Brasil.

Praticamente todas as atividades das quais participei, primeiro na Física e depois na Engenharia, tiveram sempre uma natureza experimental, isto é, seus resultados deviam ter uma aplicação imediata. Minhas habilidades eram sempre mais voltadas para atividades experimentais do que teóricas.  E estas habilidades, reconheço, foram desenvolvidas nos anos que passei no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

Está sempre na minha memória o convívio que tive com o Alfredo Marques (meu colega de Faculdade), o Lattes, o Lauro Xavier, o Hervásio, o Danon, a Micheline, o Arthur, o Rex, o Telmo, a Ana Maria,  a Lelé, o Eduardo Styzei (que sempre me impressionou com sua capacidade de fabricar complicados aparelhos de vidro) e muitos outros.

Volto a mencionar as divertidas conversas que tive com o Prof. Feynman, em Copacabana, na volta do CBPF, no Alcazar e em outros bares da praia, em que ele falava de Física, dando exemplos e modelos simples que tentei repetir, no futuro, em minhas aulas. 

Finalmente, voltei ao CBPF para participar da celebração de seus 60 anos de existência. 

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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

PORQUE FÍSICA?

Porque Física ?

Terminei o curso científico no Colégio Mello e Souza em 1948 e, a pedido do diretor do colégio, Dr. Luiz de Mello Campos, aceitei a tarefa de reativar o laboratório do colégio, que estava abandonado. Aceitei, e nas férias de verão, deixei o laboratório pronto para as aulas no ano seguinte. Já havia combinado com o Prof. Albert Ebert, lecionar as aulas de laboratório de Química.

Naquele ano havia me submetido aos exames vestibulares para a Escola Nacional de Engenharia (fui reprovado em Desenho – eliminatória), para a Escola Nacional de Química (não atingi o limite de vagas) e passei no exame para a Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette, Curso de Física. 

Iniciei meus estudos de Física na Lafayette, e tornei-me amigo do Professor de Física Armando Dias Tavares e dele indagava constantemente sobre as aulas experimentais (que não eram dadas naquela Faculdade).  Com o auxílio do Prof. Armando D. Tavares consegui transferir-me para a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde me licenciei em Física em 1954 e terminei o bacharelato em 1955.

Durante meus anos de Faculdade, a partir de 1949, cujas aulas seguiam um horário errático e com intervalos muito grandes, continuei dando aulas práticas de Química no Colégio Mello e Souza e entrei  como estagiário para o Centro Brasileiro de Pesquisas Fisicas - CBPF que, naquela época, era próximo à Faculdade.  A Faculdade funcionava na Avenida Presidente Antonio Carlos, esquina com a Avenida Beira Mar (hoje Consulado Italiano), e o CBPF no 21º. Andar do Edifício Serrador, na Rua Álvaro Alvim, na Cinelândia.

No Curso de Física não fui um aluno brilhante. Meus anos de ginásio e científico foram fáceis tendo, inclusive, sido premiado com medalhas de primeiro, segundo ou terceiro lugar na classe, em quase todos os anos.  Mas eram conseguidas sem muito esforço. Em conseqüência, não fiz o costume de estudar com dedicação.  Isto só aconteceria muitos anos mais tarde, quando fui estudar no exterior.

Dos tempos de Faculdade lembro-me muito bem de meus professores;  Joaquim da Costa Ribeiro (que morreu de infarto no Clube Caiçaras, durante uma recepção ao Prêmio Nobel Yang – tenho uma foto em que eu estou distraindo o Prof. Yang e sua esposa, para que não percebessem a comoção causada no outro lado do salão), Plinio Sussekind Rocha, Maria Laura Mouzinho, José Abdelhay, Alvércio M. Gomes, José Leite Lopes, Jayme Tiomno e Cesar Lattes (com estes três últimos continuaria a ter contato no CBPF).

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Meus colegas foram uma fonte de inspiração pela dedicação que demonstravam no curso. Era uma vida de seminários, estudos em grupo, discussões o tempo todo. Cada um de nós com seus problemas particulares e dificuldades de horários.

Lembro de todos;  Sarah de Castro Barbosa, Joaquim Pedro de Andrade, Newton Braga, Luiz Carlos Gomes, Alfredo Marques (que continuei em contato no CBPF), Ramiro Porto Alegre Muniz, Carlos Marcio do Amaral, Erasmo Madureira Ferreira, Rose Marie Gebara e Regis Alves da Silva Aizikovitch, além de dois oficiais da Marinha, Radival  e José Gerard de Aratanha.



Foram anos que decidiram minha carreira. Desde logo me dirigi para a área experimental e meu estágio simultâneo no CBPF complementou e firmou meu caminho daí para  a  frente. Embora tivesse me dedicado a trabalhos experimentais durante minha passagem pela Faculdade, a pouca dedicação aos estudos teóricos  vieram a me fazer falta no futuro, primeiro na Universidade da Pennsylvania, onde fiz cursos teóricos nas áreas de Física do Estado Sólido e de Semicondutores, e depois na Universidade da Califórnia, Berkeley, onde fiz o mestrado em Engenharia Nuclear no Departamento de Engenharia Nuclear do College of Engineering.  Lá aconteceu um fato interessante: como eu não tinha a formação de engenheiro não podiam me conceder o título de Mestre em Engenharia.  Recebi o mestrado em Ciência da Engenharia (Engenharia Nuclear). Tanto num como no outro tive que recuperar o tempo perdido no estudo básico. Mas valeu a pena. As duas passagens pelo exterior definiram duas fases importantes de minha atividade – primeiro na Física do Estado Sólido e Semicondutores e depois em Engenharia Nuclear.


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